É madrugada novamente na
rua vazia e silenciosa da minha casa. Já passa da meia noite e eu estou
acordada ouvindo o vento bater na janela do meu quarto fazendo um barulho que
me causa arrepios, mas o motivo da minha insônia não é esse, e sim outro, muito
mais assustador do que um barulho estranho vindo do lado de fora da minha
janela. Uma coisa que não é fruto da minha imaginação, mas sim da realidade que
estou vivendo.
Sou do tipo de garota que
faz de tudo para parecer forte, mesmo passando por coisas que me destroem por
dentro continuo com um sorriso no rosto. O porquê disso? Não sei ao certo. Talvez
seja porque sorrir me faz ficar de pé, pronta pra enfrentar qualquer coisa ou
talvez porque eu aprendi fazer isso pra esconder minha vontade de chorar. Não interessa.
Só sei que passo o dia todo com uma droga de sorriso no rosto e choro antes de
dormir. Choro porque é a única maneira que eu encontro de desabafar, de me
libertar um pouco. Sinto-me sufocada e muito pequena pra lidar com certas
situações, mas apesar disso a vida não tem me poupado, me pondo no meio de uma
encruzilhada me obrigando a escolher um caminho. Difícil? Muito. Ainda mais quando você se encontra
nessa situação desde criança.
Na minha infância em vez de brincar de boneca tive que brincar de ser
gente grande, pra ver se entendia esse complexo mundo dos adultos, tendo que
crescer e amadurecer rápido demais, sendo preparada pra o momento em que
deveria tomar minha decisão. Ficar com meus avós que me criaram desde que
nasci, ou ir pra Espanha morar com minha mãe.
Isso é o que está martelando na minha cabeça e não me deixa dormir.
Continuo ouvindo o vento soprando lá fora. Abro a janela e vejo uma madrugada
silenciosa e quente de primavera. Fico olhando para aquele céu escuro, com os
pensamentos vagando.
Porque diabos eu tenho que passar por isso? Tá que eu nunca tive a vida
dos sonhos, nunca fui a garota mais bonita, nem a mais inteligente do colégio,
muito menos a mais popular, mas sempre tive o mais importante, fé, amigos e
amor. Tenho tudo pra ser feliz, mas não sou. E isso porque eu tenho um assunto pendente
que me atormenta.
Fechei a janela pensando naquilo ainda, fui até a estante e peguei um livro
qualquer pra me distrair. Só quando comecei a ler que percebi qual era. As
Crônicas de Nárnia. Folheei até meu conto preferido. O leão a feiticeira e o
guarda-roupa. Bem que eu podia ter um portal pra outro mundo como nessa
história, para fugir desses meus problemas. Esse pensamento acabou me dando uma
ideia. Joguei o livro de lado e pulei dentro do meu guarda-roupa, fiquei ali no
escuro, esperando ver uma luz fraquinha lá longe, ou que começasse um frio
cortante e o chão começasse a ficar gelado, mas nada aconteceu. Nada de neve,
nada de lampião, nada de fauno. Apenas o fundo do armário. Sai de lá de dentro me
achando uma idiota por ter feito isso. Que idéia mais louca. Será que eu achei
mesmo que iria encontrar um portal?
Sentei na cama, procurando algo pra fazer. Ainda não estava com sono,
então liguei o computador e fiquei perambulando pela internet. Entrei no
facebook, mas não tinha ninguém online, também né, quem iria ficar essas horas
da madrugada perdendo tempo em frente ao computador? Só eu mesma. Já estava
pensando em desligar quando finalmente encontrei em uma simples página da web o
que eu tanto procurava... O portal! Não era um portal pra Nárnia e muito menos
dentro do meu guarda-roupa... Não. Era melhor ainda, pois era um portal pra um
mundo que poderia ser criado por mim. Onde eu poderia ser quem eu
realmente era, sem tirar nem por, cheia de defeitos e qualidades, com medos
bobos e coragens absurdas. Um lugar onde eu poderia me expressar até por uma vírgula
escrita, onde as coisas não seriam perfeitas, mas eu seria livre pra sonhar e
dividir com as pessoas tudo que sentia e pensava... Todas as minhas paixões,
meus sonhos e tudo que acontece nessa minha vida fora de série. Um simples blog mas que eu transformaria em meu mundo.
Desliguei o computador e fui pra cama. Tinha consciência de que tinha
uma grande decisão pra tomar, mas pela primeira vez naquele dia, sorri. Não foi
um daqueles sorrisos pra esconder minha vontade de chorar, mas sim um daqueles
verdadeiros. Pois sabia que dali pra frente eu teria um refúgio, um lugar pra
esvaziar minha mente, pra me libertar.
“Que tudo dê certo!”, pensei. "Já deu", minha mente me respondeu.